“Até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino.”Frase atribuída a Carl Jung
A frase atribuída a Carl Jung ajuda a introduzir uma situação relativamente comum na prática médica moderna.
Uma paciente inicia o uso de lisdexanfetamina para tratamento do TDAH e, algumas semanas depois, percebe dor mandibular, apertamento dentário, ranger dos dentes durante a noite e tensão facial ao acordar.
“O medicamento causou o bruxismo.”
A associação parece imediata. Mas a medicina raramente funciona de maneira tão simples.
Existe plausibilidade científica para uma possível associação. Estimulantes podem aumentar vigilância, tensão muscular e atividade motora em pessoas mais suscetíveis aos efeitos dopaminérgicos e noradrenérgicos. A literatura médica reconhece que alguns medicamentos podem participar do desencadeamento ou agravamento do bruxismo em determinados pacientes.
Ao mesmo tempo, o próprio conceito de bruxismo mudou bastante nos últimos anos.
Bruxismo não costuma ter uma única causa
Hoje entendemos o bruxismo como um fenômeno multifatorial. Consensos internacionais o descrevem não como uma doença isolada, mas como uma atividade muscular mastigatória associada a diversos fatores biológicos, psicológicos e comportamentais.
Ou seja: a medicação pode participar do quadro sem necessariamente representar sua única causa.
- Privação de sono
- Ansiedade basal
- Hiperestimulação constante
- Excesso de cafeína
- Estresse crônico
- Hiperfoco prolongado
- Dificuldade de desacelerar
- Tensão mandibular prévia
Quando um sintoma deixa de permanecer silencioso
Às vezes, o sintoma não surge exatamente depois da medicação. Ele apenas passa a ser percebido com mais clareza.
Essa possibilidade merece atenção quando lembramos que a lisdexanfetamina costuma ser prescrita justamente para pessoas com TDAH. Em alguns casos, a desatenção pode fazer com que sinais corporais passem despercebidos por longos períodos.
A pessoa convive com tensão mandibular, apertamento dentário, fadiga muscular ou hábitos parafuncionais sem perceber conscientemente sua frequência ou intensidade. Quando o tratamento melhora a atenção e a percepção corporal, sintomas antes negligenciados podem se tornar mais evidentes.
Isso não exclui uma participação medicamentosa. Apenas amplia o raciocínio clínico — especialmente quando também existem ansiedade, hiperestimulação mental, privação de sono e estados persistentes de alerta.
Anamnese
O que precisa ser investigado?
- Em qual horário o medicamento é utilizado?
- Existe relação temporal com aumento da dose?
- O sintoma ocorre durante o pico do efeito ou no rebote?
- Como está a qualidade do sono?
- Existe uso associado de cafeína ou nicotina?
- Já havia sinais de ansiedade antes do tratamento?
- O apertamento também ocorre durante a vigília?
- Há cefaleia matinal, dor facial ou fadiga ao acordar?
Nem todo sintoma associado temporalmente a um medicamento nasce exclusivamente dele. Em alguns casos, a medicação pode amplificar estados prévios de tensão, vigilância, ansiedade, privação de descanso e excesso de estímulos.
E talvez Jung continue atual justamente por isso.
Alguns sintomas não aparecem apenas para serem combatidos. Às vezes, também revelam algo que o corpo já tentava comunicar.
Referências
- Lobbezoo F. et al. International consensus on the assessment of bruxism. Journal of Oral Rehabilitation, 2018.
- Lobbezoo F. et al. Bruxism defined and graded: an international consensus. Journal of Oral Rehabilitation, 2013.
- Lal SJ, Weber KK. Bruxism Management. StatPearls Publishing, 2024.
- Chemelo V. et al. Is There Association Between Stress and Bruxism? A Systematic Review and Meta-Analysis, 2020.
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